Hello other side of the hell
Em mais um exodo que fazia a UFPa para um aula escrota de Historia do Brasil, estava lendo meu impresso mal feio de Morangos Mofados, (mal feio mas limpinho, com todas as letras)e leio o conto Gay-Erotico-Nãoporno-antihomofobia...leiam também...ler é bom, mesmo quando se esta com fone....
TERÇA-FEIRA GORDA
S.R. Glauber
Em mais um exodo que fazia a UFPa para um aula escrota de Historia do Brasil, estava lendo meu impresso mal feio de Morangos Mofados, (mal feio mas limpinho, com todas as letras)e leio o conto Gay-Erotico-Nãoporno-antihomofobia...leiam também...ler é bom, mesmo quando se esta com fone....
TERÇA-FEIRA GORDA
Para Luiz Carlos Góes
De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me
olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas,
pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de
tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem
identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico.
Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, lansã com purpurina na
cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar
sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris
pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento
subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era
então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.
Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais
ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia
onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também
tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas
não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia
palavras. Havia o movimento, dança, o suor, os corpos meu e dele se
aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez
mais perto. Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora,
acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce,
olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então
sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou
o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se
misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer
coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem
nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo,
o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei
no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse.
Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo,
o dele, que por acaso era de homem também.
Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha
frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora
já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo
também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a
mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos.
As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles
morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora.
Em volta, olhavam.
Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo
maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais
redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos.
Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre para
dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha
importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope
metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha
lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria
aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a
língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas
ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E
fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no
meio dos gritos.
Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A
música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e
mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis
suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu
ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha
lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não
sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, e eu nem sei
se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era
proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.
A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele.
Sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um
espelho redondo, uma gilete. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me
estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina.
Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho pra lemanjá, me disse. O
espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com
medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir
os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu
olhei.
Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum
lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem
importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto,
olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos,
uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a
minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele,
depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra
o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra
dente.
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou
perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele
disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da
mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de
Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água
lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se
apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos
completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo
do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver
melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao
lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele
disse, é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o
braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com
que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai- ai, gritavam,
olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem
nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando
no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo
pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu
correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.
Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu
conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele,
sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de
tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito
maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.
S.R. Glauber


